CADERNO, LÁPIS, CANETA E MUITO MAIS: RETORNO GLORIOSO
O avanço tecnológico é uma realidade. Ponto final. Impossível seu retrocesso da mesma forma que é impossível negar as decorrências negativas que escorrem lado a lado das benesses por ele provocadas. Logo, a luta que ora se fortalece diz respeito à busca para definir um ponto de equilíbrio em instâncias e circunstâncias que permeiam a tessitura social.
Falamos do respeito supremo à privacidade das pessoas, famosas ou anônimas. Falamos do combate à propagação veloz e atroz das fake news, acentuada pelo avanço da inteligência artificial (IA), elementos que destroem, num passe de mágica, reputações ou constroem mitos de papelão e/ou de barro. Falamos do isolacionismo que paira, mais e mais, dentre os núcleos familiares e, ironicamente, dentre os demais grupos sociais. Basta observar o comportamento de amigos, parentes e aderentes. Reunidos em mesas de bar, em restaurantes ou em qualquer lugar, onde, supostamente, estariam para desvendar as alegrias e as dores do outro, esquecem a intenção primeira e conferem ao celular de última geração ou a qualquer outro artefato tecnológico o primeiro posto de atenção. É a solidão humana com suas garras invisíveis e maliciosas...
Tecnologia e solidão
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Pexels-gabby-k-5384446.jpg, 2026. |
Diante da supremacia da tecnologia, países dos diferentes continentes, como Suécia, França, Itália, Holanda, Reino Unido (Europa); Estados Unidos da América, Canadá (América); China e Uzbequistão (Ásia), ensaiam os primeiros e urgentes passos para rever a formação do alunado nas etapas iniciais de sua vida. Na atualidade, aproximadamente, 60% das nações do mundo já adotam restrições quanto ao uso de celulares e de outras inovações no âmbito da tecnologia em ambientes escolares, a exemplo do Brasil, cuja Lei Federal n. 15.100, de 13 de janeiro de 2025, impõe diretrizes para a adoção de dispositivos eletrônicos em educandários públicos e privados, em nível da educação básica, qual seja, da educação infantil até o ensino médio, durante aulas, recreios e intervalos, salvo para fins pedagógicos sob o comando dos professores ou em casos de demandas de saúde.
O movimento em andamento vem ganhando força diante do posicionamento e das recomendações advindas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, instituição global, com sede em Paris (França), que visa ao incremento da educação e da ciência em toda sua amplitude. A UNESCO chama atenção, com veemência, para a necessidade de gradativo veto tecnológico no ambiente formal de ensino, diante da visível queda de desempenho dos estudantes, ocasionada, em grande parte, pelo apego exacerbado às telas dos celulares; à magia das redes sociais, dos streamings e de outros artefatos. Todos estes são fatores que agravam o analfabetismo funcional e comprometem a habilidade de leitura e de interpretação, dando lugar ao analfabeto funcional. Eis o cidadão que, mesmo sabendo ler e escrever, não possui competência para atender às demandas do cotidiano e viabilizar seu crescimento como pessoa e como profissional.
Ademais, parcela significativa de médicos e neurocientistas aponta o uso exagerado de telinhas, redes sociais e de toda a parafernália à disposição da população, desde a mais tenra idade, como elemento que prejudica a memorização e a concentração. Com as medidas impostas pelos governantes até agora, já percebemos tanto a redução dos níveis de ansiedade no meio infanto-juvenil quanto a queda dos índices do odioso bullying / cyberbullying, quando atos de violência física ou psicológica são adotados por um ou mais estudantes contra determinada criança ou adolescente.
É exemplar a postura da Suécia. Ao tempo em que, desde os anos 90, lutou para impor a educação 100% digital nas escolas, agora, tem a coragem de voltar atrás (não de recuar). Saiu na frente de estratégias que incentivam a criatividade e a criticidade, acreditando que a melhoria do processo ensino-aprendizagem e a saúde mental dos mais jovens crescem com o retorno ao contato com o papel e a caneta. Daí, além de frear o uso de ferramentas digitais nas pré-escolas e escolas, o Governo sueco direcionou pesados investimentos públicos, desde 2003 – 45 milhões de euros ou 242 milhões de reais – para a volta de livros didáticos impressos, de cadernos e da escrita à mão. É o retorno glorioso do caderno e do lápis!
Caderno e lápis: retorno glorioso
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Kindel Media, 2026. |
Afinal, escrever à mão proporciona uma série de vantagens, resumidas didaticamente pela UOL, empresa brasileira de conteúdo, produtos e serviços da Internet, sob o título “10 benefícios para o cérebro de escrever à mão em vez de só digitar”: (1) melhora a memória, ao auxiliar o cérebro a processar e reter dados, informações e conhecimentos; (2) exercita a coordenação motora; (3) amplia o foco e facilita a concentração, até porque a falta de atenção é mais acentuada quando digitamos no celular ou no computador do que quando escrevemos; (4) incita a criatividade, pois a escrita à mão, ao contrário dos movimentos recorrentes da digitação, permite o exercício da inventividade; (5) aperfeiçoa o processamento de informações, que, ocorre, então, de forma mais profunda e, por conseguinte, num contexto de compreensão mais abrangente; (6) promove a saúde mental, pois a escrita tende a reduzir estresse e ansiedade, tão comuns na sociedade contemporânea; além da saúde física: as dores recorrentes em polegares e/ou punhos são, cada vez mais, comuns em consultórios médicos e, segundo os ortopedistas, decorrem do uso excessivo e incorreto do celular e do computador; (7) fortalece o estilo próprio de cada um se expressar, favorecendo a conexão consigo mesmo, porquanto funciona como refúgio para os pensamentos; (8) estimula a criticidade, pois, por ser mais lento, o ato de escrever à mão, em geral, conduz o indivíduo a reflexões mais densas ao tempo em que as palavras ganham vida; (9) aprimora as habilidades linguísticas: as regras gramaticais se tornam mais inteligíveis, lembrando que programas de ortografia automática e a IA fazem a escrita parecer não relevante e demasiadamente fácil, como se não demandasse esforço mental e entrega d’alma; (10) reforça a plasticidade do cérebro ao ativar áreas distintas, contribuindo para novas conexões neurais e, assim, reiterando cientistas, para quem o cérebro desenvolve circuitos significativos quando aprende a usar a letra cursiva.
Portanto, diante da pergunta: por que a Suécia desistiu da educação 100% digital e está de volta ao papel e ao lápis, temos uma resposta simples. Eis a intenção clara de recuperar o desempenho dos alunos frente à leitura e à escrita, reconhecendo o livro físico como fundamental ao desenvolvimento cognitivo. Registramos maior atenção à fala dos especialistas em saúde pública quanto aos males advindos do uso desenfreado dos artefatos tecnológicos e, ainda, percebemos a dificuldade crescente dos pais ou responsáveis em acompanharem os filhos nas tarefas escolares.
Por fim, reiteramos que não se trata de negar a relevância da ciência e da tecnologia em prol da humanidade nas diferentes áreas do conhecimento, a exemplo das Ciências Exatas e da Terra, Ciências Biológicas, Engenharias e Ciências da Saúde. Acreditamos que o intuito da UNESCO, da Suécia e demais Governos é retomar a delícia de escrever, de acalentar memórias e, sobretudo, de transmitir sentimentos através de palavras de forma genuína, sem interferência da IA ou de qualquer recurso que alimente notícias rasas e imprecisas.
Fontes:
BRASIL. Presidência da República. Lei n. 15.100, de 13 de janeiro de 2025. Dispõe sobre a utilização, por estudantes, de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nos estabelecimentos públicos e privados de ensino da educação básica. 2025. Disponível em: https://www2.camara. leg.br/legin/fed/lei/2025/lei-15100-13-janeiro-2025 -796892-publicacao original-174094-pl.html. Acesso em: 29 ago. 2026.
G1. Por que a Suécia desistiu da educação 100% digital e gastará milhões de euros para voltar aos livros impressos? 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/ 2023/08/07/por-que-a-suecia-desistiu-da-educacao-100percent-digital-e-gastara-milhoes-de-euros-para-voltar-aos-livros-impressos.ghtml. Acesso em: 29 ago. 2026.
UOL. 10 benefícios para o cérebro de escrever à mão em vez de só digitar. 2024. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2024/10/09/10-beneficios-para-o-cerebro-de-escrever-a-mao-em-vez-de-so-digitar.htm. Acesso em: 29 ago. 2026.