O QUE ACONTECEU COM A “BELEZA DE SER UM ETERNO APRENDIZ”?
Thamiris Iara Sousa Silva
Nós estamos com medo de errar? Ou, nós estamos com vergonha de não saber? Ou pior, estamos com vergonha de aprender? Pior ainda, estamos com medo de sermos vistos aprendendo, porque as pessoas não podem saber que nós erramos?
Ora, ora, ora, se não sou eu com mais uma série de questionamentos... bem vindos ao maravilhoso mundo que é a minha cabeça, onde habitam muitas perguntas e pouquíssimas respostas.
Um dia desses olhando o feed do pinterest, eu me deparei com uma imagem que tinha a seguinte frase: errar é um privilégio de quem tenta. Gostei, guardei pra mim, atualmente estou vivendo muitas mudanças de ideias e percursos, recalcular a rota exige coragem para viver o novo, e pelo novo ser desconhecido, os primeiros passos nesse caminho só entregam uma certeza: eu vou errar!
Ao ver a frase que citei acima eu respirei aliviada, porque por mais corajosa que eu seja, ainda tenho medo, e o medo pode ser paralisante, e ao ler a frase eu senti a força que é ter a ousadia de errar, porque erro também é movimento; me apropriei disso: o que meu erro revela sobre mim é que eu estou tentando e, ao errar, entendo que aquela não é a melhor atitude, então exerço minha criatividade, minha inteligência e busco outras estratégias, isso é fazer uso do privilégio de errar.
Mas ao que tudo indica... fonte: postagens no instagram (risos); eu peço desculpa aos acadêmicos, mas hoje todo meu repertório é midiático, em uma próxima falamos de Foucault, Almeida Júnior e outros (risos).
Como eu dizia, ao que tudo indica não é somente o medo de errar que cerca as pessoas, existe uma frustração em ser visto como aprendiz. Vi esses dias no instagram uma postagem que dizia: “odeio ser aprendiz, queria pular para a parte em que já sei de tudo”. Era para ser engraçado, com um tom de sarcasmo, mas como eu sofro da síndrome da análise, eu fiquei pensando na ingenuidade de quem escreveu isso.
Ô mania feia essa que o ser humano tem de transformar coisas boas em coisas ruins!
Como pode alguém odiar a melhor habilidade humana que é o aprender? Imagina que nós, do momento em que nascemos até o momento em morremos, podemos aprender. Não estou dizendo que é um processo facílimo, estou dizendo que se “tu quer” aprender algo “tu pode” se dedicar a isso e aprendê-lo, mas por algum motivo as pessoas estão deturpando o que é ser iniciante em algo.
Eu tentei evitar, mas é inevitável, e você vai concordar comigo, pois não tem como fazer qualquer leitura da realidade hoje sem o atravessamento do digital. Essa alteração no tempo e no aprendizado é sim reflexo da internet, mais propriamente das mídias sociais, que glamorizam o imediatismo e as abordagens rasas; uma notícia pode se tornar uma temática discutível em pouco tempo, tão pouco tempo que é impossível que alguém que não seja especialista no assunto possa se pronunciar, entretanto, estão lá, nas mídias sociais, os “especialistas de tudo” com conhecimento de nada, não importa se o que disseram faz algum sentido, o que importa é que estão falando como se soubessem, com convicção o suficiente para que ninguém desconfie que na verdade, eles não sabem.
É com esse tipo de cenário que começamos a pensar que ser aprendiz é ruim, que o processo de aprendizagem deveria ser mais rápido, que de alguma forma já deveríamos saber, e que, não sei como, existe um lugar do conhecimento em que se é tão suficiente que já não há mais nada para se aprender, e que já se sabe tanto que se tornou livre de errar. Aos desavisados: esse lugar não existe.
Uma vez em uma conversa com a mãe de uma amiga da pós-graduação, a mãe, uma senhora da terceira idade, me contou várias coisas que eu, completamente encantada, ouvia. Em dado momento ela me disse que além da filha dela que é minha amiga, que estava a pouco de obter o seu título de doutora, ela era cercada da outra filha e dos genros que também são pessoas aplicadas nos estudos, e ela me falou que todos eles conversavam com ela sobre seus desafios nos estudos e em seus trabalhos, ela fez questão de pontuar que eles trabalham em áreas distintas, o que exigia dela muita atenção para estar apta a discutir, e então ela disse a que para mim é uma célebre frase: é minha filha, eu tenho que ser muito inteligente para conversar com as minhas filhas e os meu genros! Eu achei essa frase de uma genialidade...
Conversar com aquela a senhora me fez desejar ser como ela, que diante do conhecimento novo não se amedronta, ao contrário, sente-se desafiada e prova a si mesma que é capaz. Ela poderia fugir dos diálogos acadêmicos e de trabalho da sua família, se sentir inapta a opinar, a dar seu ponto de vista, mas ela via nesses diálogos a oportunidade de aprender, se errasse, bom, aprendia e da próxima acertava. Desejo que sejamos como ela, vendo no erro uma oportunidade de aprendizagem e não de fracasso, que ao nos vermos como aprendiz não tenhamos pressa em pular etapas, e sim, nos orgulhemos de sermos capazes de errar e aprender com os nossos erros.
Finalmente, como eu não dou ponto sem nó, trago o trecho da canção de Gonzaguinha que dá título a este texto, (leia cantando): “viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz.” Que por toda vida estejamos dispostos a aprender, a se apropriar do novo, e se o preço disso for alguns erros, erremos.